Lábio leporino: entenda as causas e conheça os tratamentos

Ana Paula Cardoso

Malformação  congênita pode ser detectada através de ultrassonografia e tem tratamento que pode levar à completa reabilitação da criança

Lábio leporino é uma malformação que tem tratamento e o bebê poderá ser reabilitado. © jegesvarga/iStockphoto.com


O lábio leporino é um  dos defeitos congênitos mais comuns que atingem os fetos. Também chamado de fissuras labiopalatais, é caracterizado por uma fenda, como se a boca do bebê estivesse rasgada. O problema tem tratamento e a criança pode ser reabilitada. O maior entrave, no entanto,  é o preconceito em relação à aparência ou uma associação equivocada desta malformação a doenças mentais.

“Com o acompanhamento adequado, é possível a total reabilitação do paciente com fissura labiopalatal e quanto mais cedo a intervenção, melhor. É importante frisar que não há nenhuma relação entre a fissura e o desenvolvimento mental da criança”,  tranquiliza a pediatra e plantonista na unidade de internação do hospital infantil Sabara e na UPA do Einstein de Perdizes (SP), Dra. Marua Júlia Carvalho.

A médica explica também que o lábio leporino acontece durante o desenvolvimento embrionário, ainda no primeiro trimestre de gestação, quando as duas metades do rosto se fundem na linha média, formando as características faciais como lábios e boca.

“O lábio leporino ocorre quando os tecidos que dão origem aos lábios e/ou palato não se juntam completamente durante a gestação”, esclarece a especialista.

Tipos e incidência de casos de lábio leporino

Existem dois tipos de lesão características do lábio leporino, que podem aparecer isoladas ou em conjunto. São elas: fenda ou fissura labial - uma pequena fenda no lábio superior - e fenda ou fissura lábio-palatina - total separação do lábio superior, atingindo também o céu-da-boca, base do nariz e até a úvula (a "campainha").

Segundo a pediatra e plantonista do hospital infantil Sabara, geralmente o paciente apresenta as duas lesões, mas incidência de cada tipo de lábio leporino é variável e depende da extensão da lesão:

  • fenda palatina isolada (25% dos casos);
  • fenda labial isolada ( 30% dos casos);
  • com fendas em conjunto (45% dos casos).

"As fendas labiais e lábio/palatinas atingem mais bebês do sexo masculino, ficando as meninas com maior número de fendas palatinas isoladas”, informa a médica.

As fendas do lábio leporino podem tanto ser malformações congênitas isoladas, como também podem estar associadas a outros quadros (como de  surdez), ou, ainda, ser parte de síndromes.

“Em 70% dos casos, o defeito ocorre de forma isolada e em 30% deles pode estar associado a alguma síndrome, sendo mais de 300 diferentes descritas em estudos”, completa a médica.

Causas e detecção pela ultrassonografia

As causas dos casos não sindrômicos ainda não estão bem definidas, mas provavelmente ocorrem por uma combinação de fatores genéticos e ambientais. Pessoas que têm familiares próximos ou que elas mesmas tiveram lábio leporino, têm maiores chances dos filhos desenvolverem a condição. 

Na maioria dos casos, entretanto, não há predisposição genética. Os fatores ambientais são apontados, então, como a principal causa da má formação. Alguns exemplos conhecidos são:

  • exposição a substâncias teratogênicas na gravidez como álcool e tabaco; 
  • uso de certos medicamentos como anticonvulsivantes e corticoides no 1º trimestre gestacional;
  • e obesidade materna.  

“Estudos indicam que há outras possíveis causas que podem estar envolvidas com a ocorrência dessas patologias, como deficiência nutricional”,  acrescenta a Dra Maria Júlia Carvalho. O diagnóstico da doença pode ser descoberto antes do nascimento da criança por meio da ultrassonografia realizada no pré-natal.

“Geralmente, saber que um filho tem lábio leporino traz um  grande impacto aos pais. Mas uma vez verificada sua existência, eles  devem se preparar para o tratamento que envolve uma abordagem multidisciplinar incluindo pediatra, cirurgião, otorrino, odontopediatra e fonoaudiólogo”, orienta a especialistas.

Tratamentos para cuidar do lábio leporino

O tratamento envolve, muitas vezes, vários procedimentos (medicais ou não) durante a infância que têm como objetivo principal a reabilitação para uma boa funcionalidade nasal e oral.

Os principais são: 

  • Realização de cirurgia(s) para a correção do problema. A partir do 1º mês de vida já tem início o processo de avaliação e preparação do recém nascido para a cirurgia corretiva. “A correção do lábio leporino ocorre por volta dos 3 meses de vida; no caso da fenda palatina, a reconstrução normalmente é feita um pouco mais tarde, por volta dos 12-18 meses. Às vezes mais de uma cirurgia é necessária para o fechamento adequado da fenda”, explica a pediatra. 
  • Orientação em relação a cuidados na amamentação. “A amamentação de bebês com lábios leporinos é possível, desde que a mãe receba orientação adequada. Em alguns casos, uma mamadeira especial pode ser necessária”, alerta a Dra. Maria Júlia;
  • Acompanhamento com fonoaudiólogo. Não tem idade certa, mas deve ter um início precoce este acompanhamento. O mais indicado é consultar uma fonoaudióloga logo nos primeiros meses de vida e saber o passo a passo do tratamento.
  •  Limpeza da boca. Como a fenda pode causar separação dos dentes ou até ausência deles e envolver gengiva, é importante  a orientação em relação a cuidados de higiene oral.

Também é importante o acompanhamento dos pais com um psicólogo para se adaptarem à condição e se prepararem para a série de procedimentos e exames que terão de realizar com seu filho. Como é uma decisão difícil deixar uma criança tão pequena passar por uma operação, deve haver um preparo com antecedência para isso.

“No Brasil, são encontrados vários centros especializados no atendimento de pacientes com fissuras labiopalatais pelo SUS. O mais conhecido é o Centrinho da USP, localizado em Bauru”, orienta a pediatra e plantonista do hospital infantil Sabara.

Lábio leporino X amamentação

Alguns bebês com lábio leporino não têm problemas com relação a alimentação, já outros têm dificuldades. Os bebês que têm fissura lábio-palatal merecem uma atenção especial, principalmente na hora da alimentação. Na amamentação, a criança precisa criar um vácuo entre a boca e o mamilo da mãe para que consiga mamar bem, o que se torna difícil quando há a fissura.

“Crianças nascidas com lábio leporino, portanto,  podem ter mais dificuldade para fazer a “pega” correta no seio da mãe e criar esse vácuo, o que torna a amamentação um tanto mais complicada. No entanto, a maioria delas acaba conseguindo mamar no peito após a devida orientação  e ajuste do posicionamento do bebê”, conta a Dra. Maria Júlia.

A pediatra informa que, se o aleitamento materno não for possível, pode-se recorrer à mamadeira. “Em certos casos é necessário o uso de mamadeiras especiais, com bicos maiores que vedam a fenda, facilitando a sucção. Como o leite materno é sabidamente o melhor alimento para o bebê, a mãe pode tirar o próprio leite e oferecer na mamadeira”, orienta.

Para finalizar, a médica especialista em pediatria ressalta que sem o devido tratamento, podem haver sequelas graves, como :

  • a perda da audição;
  • otites e infecções pulmonares de repetição;
  • atraso no desenvolvimento da fala e da linguagem bem como dificuldade de comunicação e na fonação;
  • dificuldades alimentares com engasgos e regurgitações em grande quantidade;
  • dificuldade na mastigação pela má posição ou ausência dentária;
  • déficit nutricional e problemas de crescimento.;

Isso sem contar o sofrimento psicológico e o preconceito. Mas os resultados estéticos da cirurgia corretiva estão cada vez melhores.

“Caso a fenda ainda fique muito marcada, há a possibilidade de fazer novas operações, ainda durante a infância, para melhorar o aspecto estético. O inconveniente é que o tratamento é longo, tendo início praticamente desde o nascimento”, conclui a médica.

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