Preferência por um dos filhos: mito ou realidade?

Ana Paula Cardoso
Especialista explica que é possível mães terem maior afinidade com um dos filhos, sem que isso signifique amar menos os demais 

Afinidade maior com um dos filhos não significa amar menos os demais.


"Morrer, morro por todos. Mas para conviver, prefiro meu filho do meio". A impactante frase de uma professora aposentada, que prefere não se identificar, reverbera sobre um dos temas mais tabus referentes à maternidade: a preferência por um dos filhos. Fonte de culpa por parte das mães e conflitos entre irmãos, se identificar mais com um dos filhos não quer dizer gostar menos dos outros.

Para a psicanalista Maria Correa, mestre em Psicologia e especialista em atendimento a famílias com crianças e adolescentes, é preciso separar os vínculos de afinidade dos vínculos de sentimento. "Nunca tratei de casos de mães que gostam mais de um filho. Não passa pelo grau de amor essa questão. Passa por identificação, pela tendência humana de lidar mais facilmente com aquilo que nos é mais familiar", explica. 

Em outras palavras, aquela aparente preferência da mãe por um de seus filhos, na maioria dos casos, é apenas uma maior afinidade - seja de personalidade, de gostos ou de modo de agir. Quando os filhos são mais diferentes das mães, configura-se um conflito entre expectativas e realidade. E as relações entre mães e filhos, nestes casos, exigem mais negociação e renúncia.

Expectativas em relação aos filhos

De acordo com a especialista, mães fazem investimentos e projeções nos filhos, que crescem e desenvolvem gostos e vontades próprias nem sempre condizentes com os mesmos gostos e vontades dos pais. "Isto provoca um embate, não necessariamente negativo, mas que alimenta o tempo todo a necessidade de doar e aceitar, de suspensão das expectativas e redefinição de quais caminhos podemos trilhar com aquele ser tão dependente da gente e que reage ao mundo de forma tão diferente de nós", completa.

Embora a forma de criação influencie o comportamento das crianças, não será a igualdade de educação que definirá 100% o modo de agir. Compreender essa questão é importante para os pais se isentarem da culpa e da ideia de que estão fazendo algo errado. 

"É ilusão achar que se cria todos os filhos de forma igual. Até é possível estabelecer uma equalização nas questões de valores e de oportunidades. Mas com cada filho se constrói uma maternidade diferente. Porque cada pessoa é diferente e cada pessoa pode mudar com o tempo também", acrescenta Maria Correa. Por isso, é comum que as relações entre mães e filhos mudem de acordo com as fases da vida.

Mães sonham com continuidade

Para evitar conflitos, o mais recomendado é entender que a relação com os filhos funciona de forma parecida com as demais relações pessoais. Assim, como se tem mais afinidade com um amigo ou companheiro de trabalho, com os filhos se desenvolve da mesma forma. 

A crise acontece porque o amor materno incondicional confunde-se com a afinidade. Assumindo que o sentimento é o mesmo e em igual proporção por todos os filhos, convive-se de forma mais tranquila com a maior identificação com um deles. E entender a questão acaba por aproximar a mãe dos filhos com quem ela se identifica menos. 

"Como disse Freud, ter um filho é antes de tudo um ato narcísico", reflete a Maria Correa, explicando que é natural as mães sonharem com a continuidade delas mesmas. Mas a especialista garante que os filhos menos parecidos com as mães são a ponte para fazê-las crescer, desenvolver o autoconhecimento e aprender a lidar melhor com as diferenças.

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