Com a Lei da Palmada, ficou mais difícil educar sem castigo físico?

Ana Paula Cardoso
Lei da Palmada completa dois anos e ainda divide opiniões de uma geração. Mães e especialistas dizem o que pensam

A Lei da Palmada entrou em vigor há dois anos e pais aprendem a educar sem violência.


A chamada Lei da Palmada, sancionada pela Presidência da República em julho de 2014, está prestes a completar dois anos. Considerada um avanço para a proteção de crianças e adolescentes do país, vítimas de violência doméstica, a lei ainda ainda causa polêmica. 

Por um lado, pais que apanharam e não identificam como um problema grave dar um tapa corretivo de vez em quando. Do outro, especialistas são categóricos em afirmar: qualquer ato de violência não pode ser positivo na educação dos filhos.

A professora carioca Sonia Rabelo acha difícil lidar com as crianças em momentos de desobediência extrema, sem poder dar um tapa. "Tenho a sensação de ser meio 'banana', de não poder exercer minha autoridade. Sou de uma geração que apanhou dos pais e estamos aqui", diz Sônia, de 35 anos, mãe de dois meninos, de 7 e 6 anos. "Dois capetas", segundo a própria mãe.

Já para a advogada aposentada de 65 anos, Claudia Camargo, a Lei da Palmada é uma forma de controlar os limites da aplicação de castigos físicos a crianças e adolescentes. "O objetivo da legislação é proteger crianças e adolescentes contra graves tipo de violência", diz a advogada.

Lei da Palmada contra a falta de controle

Com vasta experiência em Vara de Família, Claudia, mãe de três filhos, hoje na faixa dos 30 anos, acredita que a lei é uma mudança que vem ao encontro dos avanços sociais, aos quais a família também precisam se adaptar.

"Muitos pais viram a Lei da Palmada como uma interferência do estado na privacidade da educação dos filhos. A intenção não foi a interferência, mas sim dar limite que muitas pessoas não são capazes de tangenciar", afirma a advogada.

E é essa falta de controle do grau do castigo físico que pode levar a consequências sérias. Por isso especialistas veem a lei como algo positivo, mesmo a contragosto de alguns pais. 

"A Lei da Palmada tem a função de dar diretrizes para famílias que têm mais dificuldade de impor limites de maneira menos violenta. As alternativas são a conversa, a advertência, uma avaliação, não dar o presente que a criança tanto queria", diz a psicóloga especializada em terapia de família, Helena Monteiro

Educar sem violência

A grande reclamação dos pais, como no caso da professora Sonia, é que a Lei da Palmada não distingue casos de espancamento dos casos de palmadinha ou de um tapa de leve na mão. Para isso, a advogada aposentada tem uma explicação.

Segundo a especialistas, a lei precisa ser ampla justamente para proteger as possíveis vítimas de algumas situações em que os pais perdem a cabeça e podem ultrapassar o limite. 

"O problema é que muitos pais chegam em casa sobrecarregados de seus trabalhos ou problemas cotidianos, e acabam descarregando na criança, extravasando uma cólera nem sempre proporcional à bagunça ou ao comportamento desobediente dos filhos", explica a advogada.

Outro ponto importante para justificar o rigor da Lei da Palmada é o fato de que a as crianças tendem a repetir no futuro o comportamento dos pais. Assim, caso os episódios de castigo físico sejam recorrentes em casa, a probabilidade de se desenvolver um adulto violento é grande. E por isso nem o tapinha de leve é adequado.

"Educar é um processo difícil. Aos pais, cabe exercer esse cansativo papel de falar várias vezes a mesma coisa, de se fazer coerente, de explicar. Então, não adianta bater. A forma de a criança se formar como indivíduo é também a contestação. E como educar é um ato contínuo, as palmadas não vão resolver", afirma Helena Monteiro.

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