"Não quero ter filhos": maternidade é uma escolha e não uma obrigação

Ana Paula Cardoso

Especialistas defendem que a opção de não ter filhos é individual e deve ser respeitada pela sociedade, sem o estigma de egoísmo ou insensibilidade

Mulheres têm o direito de não quererem ter filhos.


Egoísta. Fria. Esquisita. Esses são apenas alguns exemplos de adjetivos comumente escutados por mulheres que tomaram uma simples decisão de vida: não quero ter filhos. Em pleno século XXI, a decisão de não ser mãe ainda gera cobrança. Mas ao menos já se começa a discutir o tema.

O maior exemplo é a publicação elaborada pela jornalista e escritora americana Meghan Daum. O livroainda não publicado no Brasil, Selfish, Shallow and Self-absorbed (Egoísta, superficial e autocentrado, numa tradução livre) traz um ensaio de 16 autores - 13 mulheres e 3 homens - que explicam o motivo pelo qual não querem ter filhos.

Por que ter filhos? Esta é a pergunta a ser feita

O livro é provocador. Para começar, a própria autora, embora seja mãe, declara que não queria ter filhos. E isso nada tem a ver com o fato de não amar seu filho, mas ao fato de não amar tanto a sua vida de mãe. 

Os desafios da maternidade e seu lado menos glamouroso têm vindo à tona em debates recentes. A autora contesta, portanto, por que dificilmente alguém pergunta a quem teve filhos "por que você tem filhos?'" 

Por outro lado, quem decidiu não ser mãe vive sendo abordada sobre a questão. Foi o que aconteceu com a engenheira química Lucia Roberto Alves, de 57 anos. Ela casou-se em 1985 como professor universitário Edson Alves. Juntos há mais de 30 anos, nunca tiveram filhos. Por opção. 

Contra o estigma de egoísta

Lúcia e o marido vieram de uma família tradicional. Ela com três irmãos, ele com dois. O convívio com a família é harmonioso, nunca tiveram traumas. Talvez por isso a engenheira sempre era perguntada, "e aí, quando vem o bebê?"

"Eu simplesmente respondia, 'não, nós não queremos ter filhos', sentia um desconforto das pessoas. Elas perguntavam 'mas por quê?' e não aceitavam simplesmente 'não tenho vontade' como resposta", conta Lúcia. 

A engenheira completa: "Eu era vista como um E.T. Tanto que passei a inventar que não podia. Preferia a comiseração do que a condenação por me acharem egoísta", desabafa.

O livro de Megham Daum bate forte neste argumento. Já na introdução da obra, a organizadora deste ensaio sobre o direito de não ser mãe diz que seu objetivo era encontrar maneiras diferentes de falar sobre a escolha de não querer ter filhos. 

Segundo a escritora, muitos têm a ideia de que pais e não pais têm mentalidades completamente diferentes - sendo mais sensíveis aqueles que têm filhos. Ela não vê isso como verdade. 

Ser mãe não é obrigação

Segundo a psicóloga e terapeuta de família Helena Monteiro, não se deve associar egoísmo ao fato de não se ter filhos. Tanto que há pessoas sem filhos generosas, que fazem trabalhos voluntários ou são profissionais dedicados a causas coletivas - como cura de câncer entre outros.

Quando uma mulher diz "não quero ter filho" portanto, deveria ser mais respeitada. Afinal, trata-se de uma escolha individual, que implica em uma mudança de vida completa. É preciso ter realmente vontade. Mas como é possível saber se esta escolha será a melhor antes de realizá-la?

"Uma pergunta que costumo fazer no consultório é: o que você mais gosta em sua vida? Dependendo da resposta, eu jogo em seguida: 'e como será isso com a chegada do filho?'", provoca a psicóloga.

A especialista entusiasma-se com o debate. "Dialogar sobre o tema pode nos levar ao dia em que ninguém mais vai ver a maternidade como uma obrigação", completa Helena.

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