Dia das mães nas novas famílias: quando a palavra mãe vai para o plural

Ana Paula Cardoso

Quebrando o clichê de que "mãe só tem uma", casais homoafetivos rompem tabus e já conseguem até certidão de nascimento com duas mães e sem pai

Dia das Mães comemorado por duas mães é o retrato das novas famílias. © iStock


A máxima "mãe é uma só" parece estar em vias de ser quebrada completamente. Afinal, a sociedade avança nas suas estruturas. Já há crianças nascidas e/ou criadas nas novas famílias, formada por dois pais ou duas mães (no caso de homens sozinhos que adotam, ou mulheres sozinhas que adotam ou usam banco de sêmen na reprodução assistida).

A partir desta realidade, o Dia das Mães vem deixando de ser comemorado no singular, passando para o plural. É o caso das atrizes Priscila Harder e Juliana Offenbecker. Casadas há dez anos e mães das gêmeas Luna e Maya, de cinco anos, elas são o primeiro casal de mulheres no Brasil a conseguir registrar duas mães nas certidões de nascimento das filhas.

Para elas, isso é um reconhecimento oficial importante de que mãe é mãe, em qualquer família. Embora isso não queira dizer ser fácil. Apesar das conquistas sociais dos casais homoafetivos, é comum estas novas famílias ainda enfrentarem preconceitos ou mesmo terem que lidar com perguntas corriqueiras dos pequenos.

Sinceridade é a chave para o entendimento 

De questões como "onde está meu pai ou quem é meu pai?" ou "por que eu tenho duas mães?" colocadas pelos filhos das novas famílias, até casos extremos de preconceito ou bullying, o certo é que as mães no plural enfrentam outros desafios além da criação, formação e educação inerente a todos os pais. 

"Na verdade tem todo um conceito sobre pai, né? Elas [as gêmeas Luna e Maya] não têm pai e isso elas nunca questionaram porque a nossa relação é verdadeira como mãe. Ter pai envolve uma questão de relacionamento. A gente não teve relação com homem. A gente não tem essas informações", explica Juliana.

Segundo a psicóloga Sharon Feder a honestidade é o fator que mais fortalece vínculos, por isso é importante sempre dizer a verdade. No caso de Juliana e Priscila, a sinceridade é dizer às filhas simplesmente que na família delas não há pai.

“Crianças são muito inteligentes e intuitivas, então, é essencial a transparência com elas. Em casos como estes, uma resposta honesta com certeza aproxima a crianças de suas mães”, avalia Sharon. 
 

Priscila Harder e Juliana Offenbecker são mães de Luna e Maya. © iStock


Para a  psicóloga, psicanalista especialista em criança e perita em Vara de Família, Renata Bento a criança precisará da noção de verdade de acordo com o que ela pode entender no dado momento.

Por noção de verdade entende-se que deve-se ser sincero com a criança de acordo com o que ela pode absorver do momento.

"Explicando a ela como é o modelo de família na qual ela está inserida. O acolhimento da dúvida e a conversa serão os aliados para que as questões sejam abertas e discutidas", complementa Renata.

A psicóloga Sharon Feder também ressalta que, no começo, pode ser que a criança não entenda completamente, mas ao amadurecer, ficará mais claro. A complexidade de questões de gênero, relacionamentos e estruturas familiares vão sendo absorvidas naturalmente.

"Como as funções de gênero vêm se modificando muito largamente o que se observa é que a orientação sexual dos pais não é determinante para uma boa parentalidade, mas, sim, a qualidade desse vínculo pais e filhos", reforça Renata Bento.

Em resumo,  o afeto é o que sempre deve predominar.

Duas mães no registro de nascimento

E é preciso fortalecer-se no afeto para enfrentar os obstáculos. Priscila e Juliana foram pioneiras em conseguir o duplo registro de maternidade, e sem nenhum pai, para as duas filhas. Mas o trâmite não foi fácil. 

Após Priscila ter dado à luz às meninas, Juliana procurou um cartório, mas se deparou com o impedimento de figurar no documento como mãe, filiação que, na época, era restrita somente à genitora. Era maio de 2011 e o casal havia acabado de conseguir ter sua união estável, reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

A partir daí, Priscila e Juliana iniciavam outra longa batalha para que a Justiça atestasse que Luna e Maya tinham duas mães e nenhum pai. O caso só chegou a um final feliz quando saiu a sentença favorável ao casal em 12 de junho de 2013.

"Você não é nada das crianças"

Embora tenham recebido o reconhecimento oficial e documentado, nem por isso Priscila e Juliana deixaram de enfrentar intolerâncias, de uma sociedade que ainda insiste em estranhar os novos modelos de família. E desde o nascimento das meninas.

"Elas nasceram e ficaram 20 dias na UTI neonatal. Só quem podia acompanhar eram os pais e, no nosso caso, duas mães.  Então, a gente revezava o tempo todo, até que uma enfermeira me chamou um dia e disse que seria a última vez que eu entraria, pois eu não era nada das crianças", conta Juliana.

Priscila Harder e Juliana Offenbecker são mães de Luna e Maya. © iStock


Juliana saiu da maternidade aos prantos. Priscila, que ainda recuperava-se de um parto de gêmeas, virou "uma leoa" quando soube e foi até administração do hospital. A enfermeira, que mandara a outra mãe sair, confirmou a história e foi repreendida.

"A responsável pela maternidade estava na hora do parto. Essa chefe disse ainda o quanto a nossa relação era linda e que, muitas vezes, não via tamanha harmonia em outros casais. E ainda completou: 'ela é sim mãe das meninas e tem todo direito de ficar aqui a hora que ela quiser'”, relata Juliana.

Duas mães, felicidade igual para os filhos

Um estudo feito em grande escala pela Universidade de Oregon, nos Estados Unidos, comprovou que crianças criadas por pais do mesmo sexo são tão felizes quanto filhos de famílias heterossexuais.  E a especialista confirma.

"A grande diferença para uma criança ser feliz está no amor e na educação dados pelos pais, independente da orientação sexual. É muito importante que os pais busquem suas próprias felicidades e sejam modelos positivos para seus filhos. Dessa forma, os filhos seguirão exemplos construtivos”, reforça a psicóloga Sharon Feder.

De acordo com a psicóloga, as famílias precisam abrir canais de comunicação, através do qual exista um diálogo sem preconceito, com confiança e amor. “Assim todos se sentirão parte da sociedade e não teremos casos de bullying, depressão infantil e outros transtornos mentais gerados por mentes fechadas”, conclui.

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1 comentário

excelente artigo, atual, objetivo e, ao mesmo tempo, acolhedor