Pai de primeira viagem: paternidade também começa na fase de gestação

Ana Paula Cardoso

Envolvimento é a palavra de ordem para fazer homens sentirem-se pais desde o início da gravidez da companheira

Pai de primeira viagem: participação é fundamental. © iStockphoto.com/monkeybusinessimages


Apesar de os homens estarem cada vez mais participativos nos cuidados com bebês, ainda é a mulher que, organicamente falando e já a partir do primeiro mês de gravidez, fica mais sobrecarregada na fase de gestação. Ou mesmo nos primeiros meses dos filhos, muito por conta da amamentação. Ao pai de primeira viagem, resta ficar um pouco perdido.

"Quando sua mulher fica grávida, ela para de beber, o corpo dela muda. A gente continua a tomar cerveja, nossa vida não muda em quase nada. Quando a criança nasce, diferente da mulher que já estava completamente vinculada à maternidade, nós, homens, tomamos um susto. Vemos aquele bebê tão frágil e nos perguntamos: 'e agora'?", conta o jornalista Marcos Piangers, autor do livro O Papai é Pop (editora Belas Letras).

No início, ser pai é subjetivo

No início da gravidez de suas mulheres, as maiores angústias dos homens referem-se ao suposto peso da responsabilidade, seja financeira, educacional ou moral, que, culturalmente, ainda é exigida dos pais.

"E ainda tem a sensação de ausência de elementos concretos, já que não existem dados ou imagens que torne palpável a presença desse ser vivo que vai chegar", ilustra o psicólogo e professor da FADISP, Luiz Francisco. 

Para o homem, o filho ainda é algo muito subjetivo, já que ele não sente, não vê, apenas imagina. Está tudo ainda no mundo das ideias. Então, ele pode ter medo disso.

"Tudo o que é novo, não sabemos, não sentimos, não experimentamos concretamente, por nossos sentidos, nos assusta, porque não temos controle. É isso que acontece", explica a psicóloga Lizandra Arita.

Envolvimento é o lema do pai de primeira viagem 

Para a psicóloga Patrícia Assis, especialista em psicologia clínica e da família, em primeiro lugar os homens precisam entender melhor sobre  o exercício da função paterna. Um processo de experiências que, segundo ela, ultrapassam o vínculo de filiação biológica ou de função jurídica parental. 

"As experiências psicológicas e sociais começam na gestação e vão se estender durante todo o período de desenvolvimento do filho - dentro ou fora do ventre materno. O pai de primeira viagem deve acompanhar a mãe em exames médicos, cursos de cuidados com bebês, decoração de quarto etc", incentiva a psicóloga.

O homem precisará envolver-se, portanto, fazendo um exercício de fora para dentro. Já que a natureza não lhe privilegiou com a possibilidade do feto, a cada fase da gestação - e depois do nascimento - existem possibilidades de se estimular novas competências paternas. 

"Nos primeiros meses de vida do filho, o pai deve compartilhar com a mãe alguns cuidados com o bebê o que favorece vínculo afetivo, tais como o banho, a troca de fraldas, a eructação (processo de arrotar), o colocar para dormir", sugere Patrícia.

Você não está sozinho!

Outro ponto chave para o envolvimento do homem na gestação e primeiros meses de vida dos filhos é um fator muito próprio dos tempos atuais: as redes sociais.  Segundo Patrícia Assis, é comum o pai de primeira viagem ter algum amigo que tenha passado pela experiência da paternidade e que tenha compartilhado suas vivências durante este processo. 

De acordo com os especialistas, observa-se nos atendimentos no consultório que, durante a gestação, existe (da parte dos homens) uma grande expectativa quanto a questões de ordem prática. Na ausência de maior participação biológica, é comum o pai de primeira viagem apoiar-se nesse pragmatismo para compensar uma certa "culpa" por não estarem carregando o bebê no ventre.

Foi o que aconteceu com o engenheiro eletrônico Eduardo Samuel. "Na minha cabeça eu só pensava em como eu iria sustentar meu filho. Tive crises de angústia, pensando que minha mulher seria demitida ao voltar da licença maternidade e que eu teria que dar conta, sozinho, da parte financeira. O que me salvou foi conversar com outros pais de primeira viagem", conta o engenheiro.

Participação do pai não é clichê

Desde o momento do resultado do exame atestando a gravidez, a participação do pai é absolutamente possível em quase todas as tarefas. Desde a notificação à família e amigos, sem falar na escolha do nome. Também é importante o pai de primeira viagem estar envolvido na escolha do obstetra, do hospital, das roupas, mobiliários, acessórios, decoração, dentre outros. 

"O pai pode e deve participar de cada decisão e a ação relacionada ao filho que está para chegar. Embora culturalmente isso seja pouco usual, o pai pode participar inclusive na escolha das roupas da mãe, na montagem de um chá de bebê se for o caso e também de cursos de formação sobre como carregar, banhar, ninar e trocar o bebê", sugere Francisco. 

Para o psicólogo, o mundo vive um momento oportuno de quebras de paradigmas que limitam ou restringem a participação dos pais na gravidez e nos primeiros anos de vida da criança. Seja pai de primeira viagem, seja experiente.

"Está claro em nossa sociedade o papel ativo dessa figura que deve integrar o processo de construção da personalidade da criança em desenvolvimento, se fazendo cumprir a velha máxima de que não basta ser pai, mas é preciso participar", conclui o psicólogo e  professor da professor da FADISP.

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