Conheça os principais  problemas da gravidez na adolescência 

Ana Paula Cardoso

Caso ainda de grande incidência no Brasil, a gravidez na adolescência é uma das principais causas de evasão escolar, além de não ser ideal do ponto de vista clínico 

Gravidez na adolescência causa problemas de ordem emocional e riscos clínicos.


A gravidez na adolescência tem no Brasil uma das mais altas incidências do mundo. De acordo com o último levantamento da pesquisa Síntese de Indicadores Sociais, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2015, o número de mulheres com 19 anos ou menos representa 17,4% do total das gestantes no país.

Os números relacionados à gravidez na adolescência são apenas dados frios de uma realidade ainda mais dura: a maior parte das gestações neste faixa etária não foi planejada ou é indesejada

De acordo com um relatório divulgado pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), inúmeros casos de gravidez na adolescência decorrem ainda de abusos na infância e violência sexual, ou são resultados de uniões conjugais precoces, geralmente com homens mais velhos. 

Gravidez na adolescência e o abandono escolar

Ao engravidarem, voluntaria ou involuntariamente, essas adolescentes veem seus projetos de vida naufragarem. "É de se destacar a relação existente entre gravidez e abandono escolar, pois se estima que cerca de 58% dessas meninas brasileiras com filhos não trabalhem ou estudem", ressalta o Dr. Paulo Nassar, coordenador do centro de diagnóstico da maternidade Perinatal Barra.

Os estudos do UNFPA mostram ainda a relação entre a gravidez na adolescência e o ciclo de perpetuação da pobreza, desigualdade e exclusão social. Afinal, ainda é maior a incidência de mães adolescentes nas camadas menos favorecidas economicamente do país. 

"Uma menina que vê seus projetos de vida comuns à idade como brincar, namorar, estudar ou pensar no futuro abruptamente interrompidos pela maternidade, já entra em desvantagem no ciclo de desenvolvimento pessoal", completa a psicóloga terapeuta de família Helena Monteiro. 

Comportamento de risco e a gravidez prematura

Mesmo em camadas mais pobre da população, o acesso a meios de informação está presente. O que aumentaria a probabilidade a gestação prematura destas meninas é o comportamento de risco, inerente à fase da adolescência.  Sem contar que, como reforça o médico da Perinatal Barra, é impossível dissociar a gravidez na adolescência da descoberta da sexualidade.

Para a psicóloga especializada em atendimento a crianças e adolescentes, não há uma única causa principal para a gravidez na adolescência, mas uma somatória de fatores. A capacidade do adolescente de se considerar sábio de todos os assuntos e achar que as informações vindas de adultos e de instituições são irrelevantes é um destes fatores.

"Eles (os adolescentes) são imediatistas, usufruindo de prazeres sem pensar nas consequências e de, ainda nos dias de hoje, considerarem-se blindados, como se a gravidez só ocorresse em populações diferentes da sua", reforça a psicóloga Viviane Rossi.

O médico da Perinatal Barra reforça a tese da psicóloga. "A gestação não planejada é muitas vezes apenas a causa de se assumir comportamentos de risco", alerta o especialista.

Ainda segundo o Dr. Paulo Nassar, a presença de um filho obriga essa adolescente a pular etapas do processo de amadurecimento emocional e social, o que de forma alguma é visto como desejável.

Educação sexual contra gravidez na adolescência

De acordo com a terapeuta de família Helena Monteiro, os programas de educação sexual voltado a crianças e adolescentes podem reduzir cada vez mais o índice de gravidez na adolescência. Mas não somente aulas tradicionais.

Programas em escolas, igrejas ou postos de saúde que reúnam os adolescentes e os faça discutir e trocar experiências entre eles, no melhor estilo 'grupo de apoio', pode ser o caminho. 

"Sem contar na distribuição de livros sobre educação sexual para crianças e adolescentes. Trata-se de uma fase na qual as informações vindas exclusivamente de adultos não são tão validadas pelos jovens quanto as que buscam sozinhos ou trocam entre eles", reforça Helena Monteiro.

Os problemas clínicos da gravidez na adolescência

Não somente problemas de ordem emocional ou social podem ser gerados pela gestação precoce. Do ponto de vista clínico-patológico, há mais riscos para a gestante ou feto na gravidez entre adolescentes do que entre adultas.

Segundo o Dr. Paulo Nassar, existem trabalhos associando a gravidez na adolescência a várias situações clínicas de risco na gestação. Entre os problemas clínicos-patológicos da gravidez em mulheres antes dos 20 anos destacam-se:

  • doenças hipertensivas na gestação (como pré-eclâmpsia);
  • aumento do risco de parto prematuro;
  • anemia gestacional;
  • Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs);
  • baixo peso do feto ao nascer.

O médico também chama a atenção para o risco de óbito materno em adolescentes de 10 a 19 anos, que em alguns lugares do mundo chegam ao dobro da incidência quando a gravidez é em mulher adulta. 

"No Brasil, uma parte dessa mortalidade se justifica pelas tentativas de interrupção da gestação em um ambiente inseguro, uma vez que o abortamento não é garantido por lei no Brasil", declara o Dr. Nassar.

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