Casamentos que acabam antes de começar

Ana Paula Cardoso
Entenda os motivos que levam casais a chegarem tão perto da decisão de oficializarem a união, ou mesmo assinarem o compromisso, para em seguida se separarem

Busca por estabilidade sem amor é o motivo principal de casamentos que terminam cedo ou na porta do altar


Quem acompanha o noticiário sobre celebridades acostumou-se com o “casa-separa” frenético entre os famosos. Mas isso não é uma característica exclusiva de quem frequenta os tapetes vermelhos.  Entre as pessoas comuns, há também frequentes casos de casamentos desfeitos  dias antes da data marcada ou até meses após a cerimônia de casamento.

Histórias como a da funcionária pública Carina, que decidiu não se casar na manhã da data marcada de seu casamento, ou do engenheiro Roberto, que se casou com festa, lua de mel no exterior e apartamento comprado em conjunto, para se separar menos de três meses após a cerimônia (os nomes foram trocados a pedido dos personagens).

Conflito entre amor e estabilidade

Carina decidiu ir a uma festa na véspera de seu casamento com a irmã. A ideia era somente relaxar, mas ela bebeu um pouco a mais e acabou beijando um rapaz na frente de todos. Seu noivo não estava presente, mas ela sabia que aquilo fora um ato inconsciente. A repreensão da irmã no caminho de volta para a casa fez ela tomar a decisão: não poderia se casar.

“Acabou que meu noivo na ocasião ficou sabendo do que houve e ele mesmo tomou a iniciativa. A situação é muito dolorosa, as pessoas investem em casamento, não só as famílias dos noivos, mas os convidados. Compram roupas, dão presentes. Claro que devolvi o que ganhei, mas não há muito o que fazer com uma bandeja de inox ou uma panela de fondue. Fiquei muito constrangida. Me sentia uma criminosa por  ter desistido”, descreve Carina.

Para o psiquiatra Ricardo Krause a sensação de Carina tem raiz no fato de a sociedade ocidental viver um conflito entre o casamento por amor e por decisões práticas.  Krause explica que o modelo de casamento antigo, adotado ainda em algumas sociedades orientais, funcionava simplesmente como um contrato civil.

“Casamento, até há 50 anos pelo menos,era um contrato, para o qual se escolhia quem melhor se adequasse aos quesitos racionais, como situação financeira, nível cultural semelhante, alguém com características para se tornar um bom pai ou boa mãe, entre outros”, diz o psiquiatra.

À medida que o sentimento passou a prevalecer como o critério essencial para a escolha do cônjuge, um conflito ancestral  vem à tona. “Embora os casais queiram se casar por amor, está arraigada em nós a ideia de que casamento é estabilidade. A tendência, desta forma, é se misturar dois pontos que não combinam: paixão e razão”, explica o especialista.

Segundo Krause, mesmo um casal apaixonado só se casa, normalmente, quando ambos identificam no parceiro a possibilidade dele atender a algumas expectativas racionais básicas. E isso explicaria o outro lado, por que é tão forte uma relação estável prevalecer em detrimento à paixão.
 

Test drive da relação

Foi o caso de Roberto, 45 anos. Engenheiro bem sucedido de uma multinacional conheceu sua atual esposa, Andreia (o nome também é fictício), com quem vive há 13 anos, quando estava noivo de outra. Os dois se encontraram durante um projeto de trabalho e começaram a viver uma relação por ele chamada de “clandestina”.

“Eu realmente me interessei  pela Andreia. Não era apenas atração física, o trabalho e os problemas enfrentados ao longo do projeto nos unia, mas eu estava a 3 meses de me casar com uma namorada com quem me relacionava desde os 19 anos. Tinha casa comprada com ela, família mais do que envolvida, festa organizada. Achava que o certo a fazer era ir até o fim”, conta Roberto

O Engenheiro se casou com festa, depois lua de mel e não chegou a  completar três meses de união. A fase de adaptação, segundo o psiquiatra Ricardo Krause, é uma das mais difíceis do casamento e Roberto não conseguiu sustentar a convivência com sua esposa porque estava apaixonado por Andreia. Como a então colega de trabalho era divorciada e dispunha de um apartamento onde morava só, ele mudou-se para lá.

“Nem preciso contar que minha vida se tornou um inferno, não é? Familiares romperam relações comigo, entrei em um processo de divórcio litigioso no qual as mágoas de minha ex-mulher evidenciaram-se em disputas por bens materiais e minha atual mulher até hoje ainda sofre rejeição de alguns parentes”, comenta Roberto.

O psiquiatra Ricardo Krause explica que as pressões sociais são fatores que influenciam ainda mais a luta entre razão e emoção. Para o especialista, tanto  tentar cumprir o modelo antigo de casamento, quanto casar rapidamente porque se está apaixonado pode ser um equívoco.

“Só por estabilidade, é melhor terminar tudo, seja antes, durante, no dia, cinco minutos depois. A paixão, por sua vez, também não é garantia de sustentação de nenhum casamento. O ideal é fazer um test drive: os casais morarem juntos por um tempo, antes de pensarem em festejos e envolverem tanta gente na relação, é a melhor saída para não se precipitar”, aconselha o psiquiatra.

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