Virgindade feminina voltou a ser cultuada?

Ana Paula Cardoso
Questões religiosas, valores familiares e pressão social ainda influenciam mulheres na decisão sobre quando ter a primeira relação sexual

Virgindade: decisão sobre primeira relação sexual deve ser pessoal e baseada em afeto.


Uma bióloga de 30 anos, que ainda não teve uma relação sexual, não gosta de tocar nesse assunto com as amigas. O motivo? Sofre pressão e é vista como alguém ‘fora do normal’. Sua decisão de manter-se virgem até uma idade considerada ‘avançada’ para os padrões contemporâneos está relacionada às suas crenças religiosas. Evangélica, tem como premissa manter a virgindade até o casamento.

A moça prefere não se identificar, mas está longe de ser o estereótipo da mulher recatada e reprimida. Ao contrário, é uma profissional bem sucedida, uma cientista com doutorado no exterior e vida típica de uma mulher de sua faixa etária: amigos, baladas, viagens. “Já tive namorados, claro. Mas todos eles sabiam de minha decisão. E posso garantir que o motivo do término dos relacionamentos não foi minha virgindade”, conta.

Tem idade certa para perder a virgindade?

Especialistas defendem que não existe uma idade certa para perder a virgindade, mas observam que, entre os últimos 20 anos, no Brasil, a vivência sexual está muito mais precoce: 28,7% dos adolescentes brasileiros entre 13 e 15 anos iniciam a vida sexual nesta faixa etária, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2012, realizada com estudantes pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). 

Do ponto de vista biológico, o corpo humano já se encontra pronto para a sexualidade a partir dos 14 anos, em média, tanto para homens quanto para mulheres. Mas quando o assunto é virgindade, não se deve restringir ao aspecto meramente físico. 

Fatores de ordem emocional e psicológica precisam estar amadurecidos antes da primeira relação sexual. O importante é começar a ter a vivência sexual quando já se tiver também a responsabilidade das consequências do ato. 

“A gravidez indesejada é uma dessas possíveis consequências. Doenças sexualmente transmissíveis, outras. Além disso, a motivação natural para a primeira relação sexual deve um encontro afetivo. Não falo em idealização, mas de afeição, de atração física, de ideias e de valores, movidas por um sentimento que leva até o ato sexual”, defende o ginecologista e especialista em sexualidade Marino Pravatto Júnior.

‘Novas virgens’

Na opinião de especialistas a virgindade não voltou à moda apenas pelo fato de ser mais debatida. O que ocorre é que, atualmente, as pessoas têm mais liberdade de expressão e debatem mais à vontade assuntos antes considerados tabu. Na opinião de Tatiana Presser, psicóloga e especialista em sexualidade, há uma pequena parcela de mulheres que passou a acreditar que é importante voltar a valores mais tradicionais.

São mulheres que se resguardam até encontrarem uma pessoa que acreditam ser a pessoa certa. “Nem sempre essas mulheres são virgens, muitas vezes se chamam de ‘novas virgens’, pois já perderam a virgindade mas resolvem se comprometer com si mesmas e só vão transar novamente com quem realmente sentem alguma coisa de verdade. Ou seja, não mais transar simplesmente por transar ou para agradar o outro”, conta Tatiana. 

A psicóloga também não acredita em uma idade certa para transar pela primeira vez. “Acho que a mulher tem que ter maturidade para isso, então a adolescência não é o melhor momento. Também não acredito que seja saudável casar virgem. Digamos que você tem que ‘experimentar antes de comprar’”, defende a sexpert.

Copyright foto: iStock 

Leia também:

Anúncio google

1 comentário

O artigo falou na virgindade feminina mas se esqueceu da masculina. Penso que a virgindade quando se torna uma opção livre das crenças religiosas e dos valores morais pode ser positiva para ambos os sexos em que a pessoa determina quando vai querer ter sua relação sexual, com quem e de que jeito. E ainda a possibilidade de ter outros tipos de prazeres sexuais diferentes da penetração, seja dentro ou fora de um relacionamento. É certo que muitas mulheres conseguem ter prazer melhor e mais intenso com a masturbação e que podem se sentir bem sem ter penetração sendo já adultas. E podem até ficar nuas com o namorado em que este respeite a sua vontade e busquem juntos outras maneiras menos invasivas e seguras de gozar. Enfim, acho que hoje virgindade tende a ser questão de opção e que numa sociedade evoluída não é feita por causa da religião ou de covenções morais.