Bissexualidade: a orientação sexual que sofre discriminação até entre os grupos LGBTS

Ana Paula Cardoso

Frequentemente esquecidos ou discriminados, bissexuais sofrem com o estigma de serem apontados como gays que não se assumem

Bissexualidade: a orientação sexual ainda não é compreendida. © iStockphoto.com/LemonTreeImages


As discussões sobre as questões de identidade de gênero estão cada vez mais presentes em nossa sociedade. De reivindicações como casamentos homoafetivos ou o direito de transgêneros usarem a identidade social escolhida, o respeito às diferenças tem sido a palavra de ordem. E mesmo diante dos avanços, a bissexualidade ainda enfrenta estigmas e desconfiança. E o pior: dentro do grupo LGBTS.

Mas o que  determina que alguém tem uma orientação bissexual (se isso puder ser determinado) e qual seria o conceito de bissexualidade? “Bissexualidade é quando se tem frequentemente relações tanto com homens como com mulheres em proporções semelhantes”, explica a médica Katia Yoza, especialista em psiquiatria humanizada. 

Bissexualidade determinada ao nascer

Segundo a  Dra. Katia Yoza, muitos estudos demonstram que alguns fatores que vão determinar a orientação sexual estão presentes muito cedo na vida, talvez já ao nascimento. “Seguindo este conceito, a  bissexualidade  já seria determinada ao nascimento e não se altera no decorrer da vida”, acrescenta a psiquiatra.

É o caso do desenhista carioca Cícero (o nome foi trocado a seu pedido). Desde a puberdade ele já sentia atração por homens. Criado em uma família de mulheres, onde foi o único filho homem, também sentia atração pelas meninas, amigas de suas irmãs.

“Minha estrutura familiar talvez tenha reforçado o fato de eu também gostar de mulher. Gosto de conviver com elas e o sexo vem naturalmente em função do amor e do carinho. Casei duas vezes com mulheres, fui fiel em meus relacionamentos, mas gosto de transar com homens, embora ache difícil relacionamento amorosos com eles”, conta.

Bissexuais sofrem pressão por "se assumirem"

Essa dualidade, agravada pelo fato de preferir relações de sexo casual com os homens e relacionamentos mais sérios com mulheres, sempre foi a grande tormenta na vida de Cícero. 

“Frequento os meios gays de homens. Saunas, clubes, boates. Canso de ouvir dos meus amigos que eu tenho que parar com a ‘palhaçada’ de insistir em ficar com mulheres. Os amigos héteros também me pressionam a ‘assumir’ que sou gay. Mas eu não me sinto assim. Gosto de homens e mulheres, portanto, não posso assumir o 'inassumível', se é que esta palavra existe”, desabafa Cícero.

A crueldade da sociedade mora na ignorância, que leva à crença de que a bissexualidade seria uma perversão e que a pessoa, gostando dos dois sexos, deveria fazer uma opção pelo qual se relacionar. Mas trata-se de desinformação que fomenta o preconceito.

Bissexualidade não é uma escolha

“Ninguém se torna homo, bi ou heterossexual por opção ou escolha”, afirma a psiquiatra e especialista em medicina sexual Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade (Prosex) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. “O que nos conduz para esta ou aquela orientação sexual é um conjunto de fatores biopsicossociológico-culturais”, reforça.

Hoje os especialistas acreditam que o indivíduo nasce com uma carga genética sobre a qual se assentam fatores educacionais, sociais e emocionais, que o vão moldando para a heterossexualidade, a homossexualidade ou a bissexualidade.

“Ser bissexual é uma orientação sexual determinada por múltiplos fatores
(biológicos, sociais, culturais, ambientais) que precisa ser compreendida
respeitada e aceita pela família e pela sociedade”,  lembra a Dra. Katia Yoza.

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