Antidepressivo: realmente necessário?

Ana Paula Cardoso
Pesquisa mostra que 70% das pessoas que usam antidepressivos não sofrem de depressão

Antidepressivos têm sido medicados apenas para pessoas sem indicação clínica.


A depressão e o estresse são as principais doenças que causam o abandono da vida social e o afastamento do trabalho. Quem sofre da doença ainda corre o risco de ser alvo do preconceito contra a depressão. Mas se por um lado a indústria farmacêutica avançou e desenvolveu medicamentos contra esse mal, por outro os antidepressivos têm sido usados indiscriminadamente.

Basando-se apenas nas vendas de antidepressivos como Zoloft, Lexapro ou Prozac, poderia-se afirmar que a depressão é a doença com maior incidência no mundo.

"No entanto, estudos revelam que grande parte dos indivíduos que usam os antidepressivos no mundo – cerca de 70% – não apresentam os sintomas de um episódio de depressão severa o suficiente (depressão clínica) que justifique o diagnóstico dessa medicação", alerta o médico Leonard F. Verea, psiquiatra especializado em medicina psicossomática e hipnose clínica. 

Antidepressivo contra mau humor

A Universidade de Harvard (EUA) realizou este estudo para reiterar o que muitos profissionais de psicologia já sabem: há pessoas ficando dependentes de antidepressivos. Grande parte desses remédios são medicados apenas para melhorar o humor e fazer as pessoas se sentirem melhor. 

"A chamada epidemia de medicamentos de tarja preta atinge até crianças medicadas com antidepressivos, muitas vezes sem necessidade", chama atenção a psicóloga e terapeuta de família Helena Monteiro.

Além disto, esses medicamentos também são receitados para outras doenças psiquiátricas. A mesma investigação concluiu que 38% das pessoas usam esses medicamentos para transtorno obsessivo-compulsivo, ansiedade ou outras fobias, concluindo que o antidepressivo muitas vezes é receitado para pessoas que não apresentam os sintomas da depressão clínica.

A conclusão é que os antidepressivos são comumente prescritos na ausência de indicações baseadas em evidências claras. "O antidepressivo se tornou popular, embora estudos clínicos sugerem que há inúmeros métodos naturais aos quais as pessoas podem recorrer, sem se preocuparem com os efeitos colaterais causados por esta droga", afirma o psiquiatra.

Infelicidade não é patologia

Com lucros globais estimados em torno de US$ 3 trilhões por ano, segundo último levantamento da revista Forbes, as maiores empresas do setor farmacêutico produtoras destes medicamentos acabam fazendo uma pressão comercial na classe médica. 

Muitos profissionais de saúde acabam por diagnosticar infelicidade como doença, influenciado pela propaganda de empresas, que chegam a classificar seus remédios antidepressivos como 'pílulas da felicidade'. 

Não por acaso os moradores da capital paulista consumiram, só no ano passado, 166,8 milhões de comprimidos para transtornos psiquiátricos, 52% a mais do que em 2010. Os dados são da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo.

"Precisamos levar a angústia relatada por todos a sério, pois às vezes a ajuda medicinal é realmente necessária. Mas também precisamos questionar a crescente 'patologização' da infelicidade cotidiana, pois ela fornece um mercado para a indústria farmacêutica e legitima o controle psiquiátrico", conclui o especialista em doenças psicossomáticas.

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3 comentários

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